Experiências com as quatro melhores coisas da vida: Comer e Viajar

segunda-feira, 31 de março de 2008

Em chamas


Para se despedir da cozinha antes das férias gastronômicas na Zoropa, o Monstro tacou fogo numa de suas especialidades (como se fosse muito difícil de fazer): camarões. Não é loucura. Descascados, eles foram flambados no Cointreau.

Mas o jantar não foi só o crustáceo flamejante, foi um verdadeiro banquete em que cada parte mereceria um post isolado, e agora vai tudo junto num texto de despedida até 24 de abril, quando haverá novidades gringas.

Tudo começou desde cedo à tarde, com o calo do Monstro, pão. Por cozinhar por instinto, ele sempre apanha de pães, que precisam de tanto cuidado e exatidão nas medidas, e que acaba enganando o olho como guia.

De qualquer forma, ele apelou a uma mistura pronta, da Fleischman, para simplificar o trabalho. Para não simplificar demais, o pão ganhou um recheio de lingüiça. A mistura é bem completa, e precisa apenas de água e fermento para formar a massa básica. Depois de misturar tudo muito bem, enquanto sovava a massa, o Monstro assou as lingüiças calabresas no forno.

Depois de sovar, enquanto a massa descansava (essa precisa de apenas pouco mais de 15 minutos), triturou as lingüiças no processador, e depois misturou elas e um pouco de cebolinha na massa, pincelou gema de ovo por cima e mandou ao forno por cerca de 40 minutos. Mesmo com a trapaça da mistura pronta, o bolo ganhou uma cara nova, e ficou bem mais saboroso. Poderia ficar ainda melhor, se tivesse recebido também queijo parmesão.

Este pão foi a entrada.

O jantar seriam os camarões, de tamanho médio, flambados acompanhando um risoto de queijo gouda, que foi preparado antes, já que precisava descansar por 5 minutos, tempo mais que suficiente para preparar os crustáceos.

O arroz arbóreo foi refogado com cebola e alho no azeite com um pouco de manteiga e depois foi recebendo um caldo de legumes aos poucos e mexido, para alcançar seu ponto. Quando já estava al dente, foram jogados os cubos de queijo gouda, uma boa colherada de queijo parmesão, um pouco mais de caldo. Tudo foi bem mexido e coberto com a tampa, para descansar com o fogo desligado.

Descascados, temperados com sal, tempero pronto de limão e pimenta e um pouco de tomilho, os camarões foram para a frigideira em fogo bastante alto com azeite. Assim que ganharam um pouco de cor o Monstro jogou uma boa dose de Cointreau e deu uma leve virada na panela, para o álcool queimar. Foi tudo bem rápido, coisa de um minuto de fogo alto dentro da panela, o suficiente para queimar a maior parte do álcool.
A técnica ajuda a reforçar o sabor do licor no camarão, que fica ainda mais cítrico com a ajuda do limão. É preciso dizer, entretanto, que é acima de tudo uma forma de transformar o preparo do prato em um show (a própria Larousse Gastronomique fala desse aspecto de espetáculo).

Por fim, os camarões ficaram muito tenros e suculentos, com um sabor cítrico que só o valorizava. Eles ainda combinaram muito bem o risoto bem simples, que não disputava atenção com o sabor de laranja do caldo.

Houve ainda a sobremesa. Um bolo simples de chocolate com café que ganhou a cobertura de um dos sabores mais a cara da infância do Monstro: doce de leite feito em casa.

Muito antes de a Nestlé e outras marcas começarem a vender o doce industrializado, para comer doce de leite era preciso cozinhar uma lata de leite condensado, o que só acontecia em ocasiões especiais e quando se fazia feijão, já que ela cozinhava junto, na panela de pressão, por cerca de 40 minutos até o ponto ideal. Desde o advento da industrialização do doce, entretanto, se tornou raríssimo encontrar o doce feito em casa, que fica diferente, mais suave e muito melhor que a versão vendida pronta.

O Monstro fez o que a maior parte das famílias se negava duas décadas atrás: acendeu o fogo e deixou a panela de pressão fervendo por 35 minutos APENAS com a lata de leite condensado. Antigamente falava-se que era caro, mas dane-se, sem dúvida o lume por 40 minutos vai sair mais barato que os R$ 3 que custa uma lata pronta.

Era algo que ele queria fazer desde o jantar portenho, quando serviu doce de leite com pudim, como na Argentina. Na ocasião ele temeu pelo tempo de resfrio da lata, que não pode ser aberta quente. Desta vez, deixou a panela esfriar e a colocou, aberta, em água corrente pó algum tempo, até que a lata esfriasse e pudesse ir para a geladeira, onde ficou fria de vez e pôde ser aberta, revelando um doce ótimo e em camadas diferentes de cozimento, mais para corte nas extremidades e mais cremoso no centro.

domingo, 30 de março de 2008

Erros e acertos

Monstros também erram. Mas para manter o título, precisam reverter o erro.

O equívoco foi no uso da panela de pressão. Na hora de deixar os pedaços de músculo bovino com cebola, cenoura e vinho para amaciar, por 40 minutos, a quantidade de líquido foi pouca e não deu conta, o que acabou queimando uma parte da carne.

Mas deu para contornar. Em primeiro lugar, foram salvos os pedaços que não ficaram muito queimados e dispensados os torrados. Com os que ficaram, além da cebola e da cenoura, deu para preparar o molho planejado.

Os pedaços de carne ganharam companhia de tomates pelados em conserva e manjericão, e este molho foi servido junto com um penne miniatura, da Barilla.

Acabou dando certo e servindo de lição para usos futuros da panela de pressão.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Une feijouade


“Haricots noirs, viande de bœuf séchée, saucisse fumée, saucisse de Toulouse, saucisse de Morteau, bacon maigre, oignons, persil, coriandre, ail, cumin, laurier, huile de tournesol, sel et poivre”, assim se faz uma típica feijoada segundo a edição mais recente do suplemento de comida do francês “Le Figaro”.

Sem grandes reportagens sobre o significado dos pratos brasileiros, ou uma comparação com pratos franceses, como o cassoulet, a revista traz, além da feijoada, receitas de moqueca de peixe, macaxeira frita, bolo de chocolate com banana e pudim de batata doce. Tudo muito bem traduzido e explicado passo a passo para ser reproduzido nas cozinhas da França.

É tudo mentira!

Maquiaram nosso almoço! E não foi a tradicional diminuição da quantidade vendida num pacote de biscoitos que continuou com o mesmo preço, mas uma questão de beleza mesmo, de propaganda enganosa.

Em tempos de revolução na indústria de alimentos, que disponibiliza quase tudo, nas prateleiras de supermercados, pronto para ser consumido, a imagem e a realidade são sempre distantes. Por mais que a técnica e a praticidade se espalhem em detrimento quase sempre do sabor, a tecnologia de imagens finge uma refeição apetitosa.

A pessoa compra o produto enganado pela embalagem, abre e vê algo feio e sem gosto. O site russo Pundo300 comparou a embalagem e o produto de cem alimentos industrializados, com imagens que fazem um contraste já vivido por muita gente na realidade.
Veja aqui as 100 imagens, ou algumas delas no vídeo abaixo.

Ah, e o site também mostra algumas opções russas bem estranhas para o paladar brasileiro.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Gourmand voador

Ufa! Parece que está acabando essa história de viagem de avião ser sinônimo de barra de cereal, amendoim e goiabinha.

A TAM havia servido um sanduíche frio e sem graça quando o Monstro, um mês antes, foi ao Recife, mas nessa viagem a Brasília ela surpreendeu com um prato “gourmet”: um pequeno pedaço de quiche de alho poro com uma salada verde fresca, com sachês de molho individuais.

Tá certo que ainda passa longe de qualquer coisa que lembre a alta gastronomia, mas a tortinha com gosto de queijo mostra boa vontade em respeitar o paladar de quem se desloca de avião. E o vôo foi promocional, então não saiu mais caro de que viajar de Gol, por mais que muito mais confortável.

E está sendo aberta a temporada de viagens do Monstro, que embarca na próxima semana para comer arenque cru e bolo de maconha na Holanda, moules frites, chocolates e waffles na Bélgica, e vinhos, queijos e tudo o que há de melhor na alta gastronomia em Paris, Bordeaux e Estrasburgo. As notícias podem demorar a aparecer, mas virão em grande número após o dia 23/04. O orçamento de viagem é de crédito de até 5 quilos de sobrepeso.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Capital da empada

Quantos camarões há em uma empada? Muitas vezes nenhum, outras vezes um, ou pequenos pedaços, mas o Monstro nunca havia visto nada como a sensacional empada de camarão do bar do Mercado, em Brasília.

Por fora, nada de diferente, mas a primeira mordida traz a surpresa: por dentro há mais de uma dezena de camarões de bom tamanho. A empada do bar tem massa fininha e seca, mas com uma boa consistência, sem ser farinha pura. O recheio tem um creme leve e muitos camarões, e ela dá um banho em casas especializadas nesse salgado, e acompanha muito bem o chopp gelado do bar inaugurado há pouco tempo imitando a estrutura do Mercado Municipal de São Paulo, com mercearia e bares lado a lado.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Bolo de salsicha

Na falta de pão, a receita de cachorro-quente de forno que estava num livrinho distribuído por uma rede de supermercados de São Paulo serviu para um jantar sem grandes pretensões.

A massa é semelhante à que o Monstro segue para preparar uma pizza caseira, usando o liquidificador, mas com mais de uma camada, assada por mais tempo. Ela fica bem fofa e suave e feita praticamente com uma medida de cada (ou duas, para render mais): uma xícara de leite, uma de farinha de trigo, uma colher de fermento em pó, um pouco de óleo e um ovo. Queijo parmesão, orégano e sal dão mais sabor, e isso é tudo.

O recheio sugerido é de salsichas cortadas, milho, molho de tomate e azeitonas. O monstro também usou tomates cortados, para dar mais sabor.

Depois é só untar a fôrma e intercalar massa e recheio, jogar no forno baixo e deixar por 45 minutos a uma hora.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Imitação caseira

A inspiração veio da visita ao aclamado restaurante judaico AK, durante a SP Restaurant Week. O Monstro já havia preparado costelas cozidas antes, mas esta tentava copiar o prato servido no restaurante.

Por ser durante a semana, não havia tempo para o uso de uma panela de ferro por horas, como mandaria a recita. Ele pegou a costela desossada vendida no Extra, temperou com sal e pimenta do reino e selou no azeite, já dentro da panela de pressão. Depois adicionou cebola picada, alho, cenoura em miniatura e vinho tinto, e fechou tudo por 45 minutos. Só.

Daí saíram pedaços extra-macios de carne coberta com um molho de sabor forte, quase agridoce, com gosto marcante de vinho e que até parecia a servida no AK, mas menos apurada e sem o gosto ainda mais forte de carne que os ossos da costela dariam ao molho.

O acompanhamento também imitou a receita judaica do AK: arroz com lentilhas. Esse foi preparado no instinto do monstro, como se fosse, na verdade, um risoto de arroz tipo 1 com lentilhas. Elas foram cozidas em água por 15 minutos, temperadas e depois o arroz foi jogado na água fervente com as lentilhas para que cozinhassem juntos. Deu bem certo.

Carbo Diem

Apaixonado pela gastronomia italiana e ateu e pai e mãe, o Monstro encontrou sua religião e se converteu de forma radical ao Pastafarianismo.

Agora ele faz parte da Church of the Flying Spaghetti Monster, igreja secreta com séculos de história, que se tornou conhecida em 2005. Para nós, Deus é um monstro gigante de macarrão, com almôndegas e tudo. Isso é que é design inteligente.

Amém!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Carne folhada


A primeira noite relativamente fria em São Paulo no ano, na quinta-feira (13), pediu um vinho tinto, por mais que o dia quente tivesse feito o Monstro já resfriar uma garrafa de branco, e bagunçou os planos do jantar. No lugar dele, a refeição noturna acabou sendo apenas pastéis folhados recheados com carne e queijo, acompanhados do vinho coringa, o Benjamin Nieto Cabernet Sauvignon de R$ 11.

A massa é vendida em supermercados por preços baixos (em torno de R$ 3), pequenos quadrados de uma pasta mais delicada que a dos pastéis tradicionais. Vem pronta para ser recheada e colocada para assar no forno.

O Monstro então triturou no processador a carne que havia sobrado do almoço, sem o molho de cebola. Adicionou um pouco de requeijão e de queijo gorngonzola, e usou a pasta resultante como miolo dos pastéis.

O tempo no forno superou os 20 minutos indicados na embalagem. Foram quase 50 até que a massa adquirisse uma cor atraente (graças à gema de ovo que pincelou os pastéis antes do fogo) e uma consistência mais sequinha. No fim, os pastéis ficaram ótimos tanto no exterior quanto no interior, além de terem um sabor bastante diferenciado dos recheios comumente encontrados em lanchonetes.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Carne de panela

Três ingredientes, só três: maminha, cebola e creme de leite.

A maminha é temperada com sal e pimenta do reino (temperos não contam como ingredientes, hein?), selada no óleo e reservada. Na mesma panela, oito cebolas picadas (o número de cebolas é aleatório, mas precisam ser muitas) forram o fundo, e a carne volta, cobrindo as cebolas. Isso fica na panela de pressão por 45 a 50 minutos, assim mesmo, sem adição de água.

Depois do cozimento, a carne está macia, fácil de ser cortada. O líquido da carne e das cebolas formam o delicioso molho, mas de sabor forte, que ganham o creme de leite para se tornar mais homogêneo e suave, mas ainda muito saboroso. Assim está pronta a maminha ao molho de cebolas.

O Monstro ainda acertou a mão no acompanhamento. Em vez do purê que era planejado, as batatas foram douradas ao forno. Cortadas ao meio, elas foram rapidamente cozidas (coisa de dez minutos) na água, escorridas e depois jogadas numa assadeira em fogo alto, com sal e um pouco de alho, com manteiga e azeite. Viradas após dez minutos, elas ficam com uma capa mais rígida e um interior macio.

Pobre paulista

Deve ser algum castigo por terem passado tanto tempo chamando o maior representante da gastronomia pernambucana de rocambole, mas não adianta. As padarias e confeitarias até tentam, mas não há bolo de rolo autêntico disponível em São Paulo.

Ou há, um pequeno pedaço apenas, prestes a ser devorado, na casa do Monstro. Foi um presente, como é quase uma obrigação sempre que alguém da terra natal visita a capital paulista.

As finas camadas de massa amanteigada (não é pão de ló) com goiabada assumem uma personalidade própria, que faz com que às vezes seja impossível até mesmo perceber que o recheio é de doce de goiaba. Nos que se encontram em São Paulo, o gosto nunca é o mesmo (tirando os "importados", claro).

Há pouco mais de uma década ainda era comum as pessoas prepararem seus próprios bolos de rolo em casa, no Recife. A cozinheira da avó do Monstro costumava preparar variações inesquecíveis, com massa ao chocolate, com recheio de brigadeiro branco, doce de leite...

Faz pouco tempo que, pela dificuldade no preparo, o doce ganhou marca, selo de qualidade. Na casa do Monstro era regular a presença dele, comprado na padaria Nutela, ou na Casa dos Frios (o mais celebrado e, realmente, sensacional).

Era tão comum comer um pedaço após o almoço que o Monstro passou muito tempo um pouco enjoado, voltando a se viciar depois da saudade e da distância. Pobres paulistas. Pobres imigrantes pernambucanos em São Paulo.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Cambistas de comida

Ingressos para qualquer grande evento cultural se esgotam rapidamente, em São Paulo, com longas filas de pessoas desesperadas para conseguir entradas. No dia do evento, cambistas altamente profissionais (com até cartão de visitas) oferecem os ingressos com algum ágio. É ruim, mas poderia ser pior. Nova York já enfrenta esquemas quase semelhantes relativos a reservas em restaurantes, segundo o “New York Times”, e pela internet.

TableXchange é o nome do site em que as pessoas podem comprar e vender reservas em cima da hora para os restaurantes mais badalados da cidade, assim como para San Francisco. Semelhante ao Mercado Livre, o site permite que, em vez de fazer reservas com mais de um mês de antecedência, qualquer pessoa possa negociar mesas por cerca de US$ 25 e conseguir ir ao Nobu, por exemplo, no mesmo dia.

A matéria do jornal nova-iorquino diz que os donos de restaurantes estão indignados com o crescimento do site, mas que, como aconteceu com o “serviço de concierge” do site OpenTable, há dois anos, nada deve acontecer para evitar as negociações.

terça-feira, 11 de março de 2008

Risco de extinção

Os ingleses dominaram a linguagem do mundo, mas foram derrotados em sua cozinha. Uma pesquisa recente financiada pela rede britânica de supermercados Tesco diz que os pratos mais tradicionais da culinária inglesa devem desaparecer até 2021, segundo reportagem recente do “Daily Telegraph”.

Em vez de torta de rim (foto), toad in a hole (um bolo com salsichas), bife Wellington e fish and chips, os ingleses comem cada vez mais pratos de influência internacional, como curry e massas, mesmo quando cozinham em casa.

Segundo a Tesco, apenas 5% das pessoas entre 18 e 40 anos já prepararam um spotted dick (um bolo com passas), enquanto 14% das pessoas com mais de 41 anos costumam fazer o prato. A pesquisa previu que em 13 anos é possível que ninguém mais tenha o hábito de preparar e comer as receitas tradicionais.

A perspectiva é desoladora. Por mais que a gastronomia britânica não seja conhecida por sua qualidade, a comida tem tanta história quanto idiomas, costumes, crenças. Faz parte da cultura inglesa e precisa ser protegida.

Foto: Reprodução

segunda-feira, 10 de março de 2008

Novo México

De inspiração mexicana, o Frida, restaurante da nova safra da gastronomia recifense, vai além de tortilas, tacos e burritos. Foi lá que o Monstro teve uma das melhores surpresas dos últimos tempos, um restaurante que poderia ser estrelado e premiado, se fosse numa cidade com mais tradição de restaurantes, sem a enorme rotatividade dos estabelecimentos do Recife.

A surpresa começou com as entradas. A porção de nachos, coloridos, finos e secos, com um gosto simples de milho, nem de longe lembrava os Doritos que são servidos em outros restaurantes mexicanos, os molhos de tomate, feijão, creme e abacate também estavam muito saborosos. Além deles, foram pedidas as tradicionais batatas fritas com cheddar e bacon, que muito crocantes e secas, também se destacavam pela enorme qualidade.

Mas o melhor eram os pratos. Mesmo com preços um pouco acima da média da cidade, lembrando mais os cardápios paulistas, as requintadas opções de jantar faziam salivar antes mesmo de pedir, além de deixar o Monstro numa imensa dúvida sobre o que pedir.

Por fim, decidiu-se pelo Frida al Mare (foto abaixo - R$ 37). Camarões grelhados, molho de queijo gorgonzola e uma galette de risoto de queijo. Este último acompanhamento foi novo para o Monstro. Trata-se de um risoto assado como se fosse um pequeno bolo, que fica crocante por fora, sem deixar de ser um arroz com belo molho. Os camarões poderiam ser um pouco maiores, mas estava tudo espetacular, novo, criativo, muito saboroso.
Outros pratos menos caros também foram experimentados pelo Monstro, que estava com a família na hora. Apesar de o al Mare ser mesmo o melhor, o Pescado Antillano (ao lado) também estava muito saboroso. Era um file de peixe grelhado de forma correta, muito bom, cobrindo um risoto de frutos do mar simples e muito bom.

Sem deixar de lado os pratos mais tradicionais, provou ainda um burrito, el Grande, que era bem mais barato (cerca de R$ 15), vinha com acompanhamentos e estava também muito bom, mas foi ofuscado pelos pratos mais elaborados.

Por último, havia o filé Wilhelm (foto abaixo), grelhado, coberto por um molho da estranha mas boa mistura de mostarda e gorgonzola e acompanhado também por uma gallette de risoto de queijo e por batatas fritas redondas espetaculares.

Na noite de domingo, quando muitos estabelecimentos do Recife estavam fechados, havia pouquíssima gente no belo salão do Frida, o que já deixa a preocupação que seja mais um das dezenas de ótimos restaurantes passageiros da cidade. O Monstro faz votos de que ele sobreviva.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Supercozinheiro


Um bom cozinheiro organiza seu cardápio com antecedência, planeja os ingredientes e prepara uma bela refeição de forma metódica. Um supercozinheiro pega qualquer ingrediente, improvisa e cria pratos memoráveis. E agora qualquer pessoa pode ter a ajuda de um supercozinheiro digital, via internet.

O Supercook é um site de receitas para aspirantes a supercozinheiros. Você não entra nele para procurar por receitas específicas, mas diz que ingredientes tem em casa e ele lista uma série de sugestões envolvendo o que se tem à mão.

É fim do mês e só sobrou uma lata de atum? O site oferece receitas e pergunta: “Tem macarrão?”, “tem queijo?”, “tem cebola?”, e enquanto se responde aos outros ingredientes e temperos disponíveis, ele vai oferecendo receitas como Atum à Alfredo, ou Creme de Atum e Queijo, que vão se tornando mais requintadas à medida que se incluem itens na lista. A cada item, ele avisa para que receitas você já tem todos os ingredientes necessários.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Novidade velha

Sushi picante, uma novidade interessante conhecida pelo Monstro há pouco tempo, acabou deixando de ser mencionado no blog, por puro descuido, mas ganha apresentação agora, graças à deixa de uma reportagem do “New York Times” sobre glutamato monossódico (o bom e velho ajinomoto).

Parecia algo revolucionário e diferente, um temaki servido com atum, cebolinha, maionese e molho de tabasco, tudo picado na faca antes de ser montado no cone. O sabor era acentuado e picante, totalmente diferente do tradicional, estranho à primeira mordida, mas interessante e curioso. O tabasco se destacava um pouco, mas sem tirar a graça dos outros ingredientes.

Ele foi servido na filial da rede Aoyama da praça Vilaboim, num jantar pouco pretensioso, de rodízio (R$ 39,90 por pessoa). No cardápio, o cone recebia o nome do restaurante. Sentado de frente para o balcão, o Monstro viu quando o peixe foi picado e depois misturado aos outros ingredientes.

Mas o que parecia alguma mistura nova, alguma ousadia de arrepiar cabelos dos puristas, tem a mesma origem que o uso de maionese nos sushis, que acaba tendo a mesma origem dos próprios sushis: o Japão.

Segundo o “New York Times”, um dos sushis mais populares do país atualmente é o “spicy tuna roll” (rolo de atum picante), preparado com o que chama de Dynamite Sauce, um preparado de maionese com molho de pimenta chili.

A reportagem menciona o sabor acentuado deste sushi e ressalta que seu sabor vem do glutamato presente na maionese japonesa, que se espalhou pelo país de forma intensa (diz-se haver até mesmo lanchonetes com “clube da maionese”, em que cada cliente pode ter seu próprio molho, guardado).

Em seu balanço, a reportagem diz que não há provas de que o ajinomoto possa fazer mal à saúde, diz que usado em excesso pode dar um gosto ruim aos pratos, mas que quando usado com sabedoria, pode fazer uma refeição simples parecer preparado pelo mais profissional dos cozinheiros.

Ps -a foto é uma reprodução de uma imagem da internet, mas o sushi parecia com este.

Pedofilia animal

De tempos em tempos os crustáceos, animais artrópodes, precisam trocar seu exoesqueleto rígido para permitir o crescimento do seu corpo, formando em seguida uma nova carapaça. É durante este período que siris “adolescentes” são caçados para poderem ser servidos como alimento, o melhor crustáceo que já existiu, na opinião do Monstro: o siri mole.

Um pouco menor que siri adulto, o mole é preparado inteiro, e não só sua carne – afinal, ele é todo carne. Pode ser frito, assado, cozido, ensopado, e chega à mesa completo, pronto para ser jogado na boca. É como se todo o benefício do delicioso sabor do crustáceo decápode (que tem “saboroso” até em seu nome científico) se livrasse de todo o trabalho envolvido na quebra da sua carapaça, jogando a relação custoXbenefício a níveis próximos do ideal.

O Monstro comeu provavelmente o melhor siri mole do mundo em sua última visita ao Recife, quando conheceu o novo bar do grupo Dias (eles dominam a cidade, e fazem os melhores bares do planeta), o Boteco Maxime, à beira mar do Pina. Frito, o crustáceo estava sequinho, muito crocante e absurdamente saboroso.

O Máxime fica no mesmo lugar do tradicional restaurante homônimo, e tem mais opções do mar que os outros bares da rede Boteco, tentando recriar num ambiente de bar a experiência das comidas vendidas de forma aleatória (e às vezes um pouco perigosas) da praia. O Monstro começou a brincadeira do sábado com uma réplica chique (e segura) do camarão de bacia. Comumente vendido na praia em situações pouco confiáveis (mas sempre saborosa), os camarões são oferecidos cozidos, frios, mas deliciosos. No bar custou R$ 7,50 uma porção.

O bar ofereceria ainda duas deliciosas surpresas. Primeiro um “kibe de frutos do mar”, um croquete de camarão e polvo em massa de macaxeira, chamado daquela forma por seu formato, mas de sabor bem regional, leve, ótimo.

Depois veio uma opção que costuma ser sazonal em outros bares, agora veio de vez, e muito melhor, a coxinha de caranguejo. A carne tratada do bicho faz as vezes do recheio, enquanto uma patola fica no lugar do osso do petisco tradicionalmente preparado com galinha. O crustáceo estava fresco, saboroso e bem temperado, numa fritura muito bem feita.

É bom lembrar que nos bares dessa rede, muitos dos petiscos são oferecidos prontos, nas mesas, em grandes bandejas, tentadoras que fazem com que sejam experimentadas mais e mais opções. Foi assim que chegaram belas ostras sendo oferecidas no balde, também como na praia.

Ela é muito fresca, e aberta e temperada na hora. Fica perfeita com sal, limão e um pouco de pimenta do reino (pode levar ainda cominho, bem ao gosto pernambucano).

terça-feira, 4 de março de 2008

Manhã sertaneja

Café da manhã, almoço e jantar. Em cada cultura, uma das refeições costuma ser mais valorizada de que outras. Nos Estados Unidos e na Europa, muitas vezes o almoço é substituído por um sanduíche, enquanto o jantar é uma refeição mais completa. O Brasil ainda dá muito valor ao almoço, com arroz, feijão e carne, mas há suas exceções, e em todo o Nordeste há uma grande presença de pesados desjejuns.

Carne assada, galinha de cabidela, bode guisado, queijo, pão, bolo, cuscuz, tapioca, leite, frutas, às vezes é tudo de uma vez, pesando o estômago logo ao levantar da cama.

Mesmo sem ser muito adepto da primeira refeição do dia, o Monstro foi recebido assim no Recife, com um tradicional café da manhã regional, incluindo cuscuz, queijo de coalho assado e um fantástico bode guisado, cozinhado até ficar bem macio e com o tempero apurado no máximo. Não teve como resistir à tentação.

O caldo do bode cobrindo o cuscuz é uma combinação clássica e sem igual, o queijo de coalho vendido em Pernambuco é altamente superior ao que se encontra em São Paulo, e assim se iniciou a rápida passagem pela melhor cidade do mundo.

Receitas, trapaças e panelas fumegantes

O suplemento mensal de comida do periódico britânico “Observer” pergunta a grandes chefs: Como trapacear na cozinha? Boas dicas saem daí.

Quem cozinha em casa sempre precisa trapacear de uma forma ou de outra, já que não pode, como comentava Alex Kapranos, preparar saborosos caldos durante três dias, além de não costumar dispor do tempo que os profissionais dedicam. O próprio Monstro estreou na cozinha trapaceando, misturando pratos prontos a ingredientes extras, que davam o diferencial (macarrão pronto, de saquinho, com molho de queijo que ganhava um toque de gorgonzola, por exemplo).

O Monstro apontou o tipo mais tradicional de trapaça na cozinha caseira, o uso de ingredientes comprados prontos ou semi-prontos para o consumo. E assim preparou um almoço com base nestes produtos, tentando mostrar que mesmo eles precisam de alguma preocupação, criatividade e competência no preparo de uma refeição.

Ele usou três ingredientes prontos: Polenta pronta da Yoki, lingüiça da Sadia (um lançamento, sem pedaços de gordura) e molho de tomate com azeitonas da Etti.

Depois de cortar e refogar as lingüiças com cebola e tomate, foi adicionado vinho tinto à frigideira, que ficou bastante tempo cozinhando para apurar bem o gosto do embutido, e no final recebeu duas pequenas colheradas do molho de tomate pronto (os tomates refogados já formavam um molho próprio).

Para o acompanhamento, a polenta foi cortada e colocada no forno para assar em azeite. Depois de 20 minutos as fatias foram viradas e ganharam cobertura de queijo parmesão. Quando saíram do forno, ficaram por baixo no prato, que recebeu a cobertura das lingüiças.

A polenta ficou crocante por fora e mole por dentro, com um sabor simples, mas marcante, de milho (lembrando os pratos de Zea mays comidos na Venezuela). Já o molho ficou saboroso e acentuado, combinando muito bem com a polenta (a receita não está incompleta, ela não levou temperos mesmo, só cebola, tomate, lingüiça e vinho).

Se o resultado sai bom, quem se importa com uma pequena trapaça?