Experiências com as quatro melhores coisas da vida: Comer e Viajar

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O italiano da esquina

Demorou dois anos para o Monstro conhecer o restaurante Abruzzi, que fica ao lado da sua casa, mas por muito tempo passou despercebido, para depois ser visto com desconfiança. O casarão onde funciona dá ao local a aparência de um daqueles restaurantes decadentes, que se acomodam e não conseguem manter a qualidade.

Mas num simples almoço, ele mostrou que sabe se adaptar. Se não tem pompa de italiano chique, ou o charme das cantinas do Bixiga, ele criou uma alternativa, oferecendo um italiano executivo de boa qualidade a baixos preços.

Custa R$ 19 por pessoa por um almoço completo no local, que funciona na rua Traipu, em Perdizes. Além de um couvert simples, de pão com berinjela e sardela, há uma boa variedade de saladas, servidas num carrinho que vai até a mesa, e um prato principal a ser escolhido numa série de opções como fetuccine à Alfredo com filé na mostarda, rondelli aos quatro queijos e outras massas, ponto mais alto do restaurante, que também funciona como rotisseria.

Na quarta-feira, o Monstro pediu um raviolini de ricota com molho de queijo gratinado. A massa estava num ponto excelente, com um molho de sabor delicado, bem trabalhado, nada forte ou enjoativo.

A mulher do Monstro pediu um nhoque de mandioquinha com molho de calabresa. O nhoque estava leve, com o sabor diferenciado da mandioquinha, contrastando bem com o forte molho de tomate e lingüiça, que chegava a lembrar (sem querer soar pejorativo) um molho para cachorro quente.

Foi uma surpresa feliz para acabar com o preconceito e deixar aberta a possibilidade de volta, por mais que não haja informação sobre a forma de funcionamento do local à noite, à la carte.

Num novo almoço no local, a única ressalva vai ser evitar o cafezinho ao fim da refeição. Passado no coador e pouco atraente, ele foi servido em xícara de espresso (o pedido foi por espresso) e custou criminosos R$ 3.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Para comer e rezar

Até o maior dos ateus se sente impelido a rezar para agradecer assim que chega à mesa a enorme porção do cabrito com arroz de brocolis e batatas douradas da igreja da gastronomia do Rio de Janeiro, o restaurante Nova Capela, na Lapa.

Como num milagre, os pedaços do bode assado são crocantes como se tivessem sido também fritos, mas jamais chegam a ser ressecados. O sabor da carne é muitovalorizado, reforçaro por um tempero com alho e por uma pequena porção de alho frito que acompanha.

O Nova Capela é um reduto de boemia no meio da Lapa. Enquanto a maioria dos tradicionais bares da região se adapta para a moda da noite do Rio, se transformando em boates ou casa de show, o Nova Capela mantém suas mesas cobertas com toalhas de papel, seu cardápio de restaurante, seu chopp de tulipa simples, mas bem gelado, sua atmosfera de noite e ressaca.

O cabrito é a especialidade do cardápio. Custa R$ 54 por uma porção que seve duas pessoas famintas. E sai em quantidades tão grandes quanto o próprio chopp.

Na visita do Monstro, na ressaca no último domingo, a refeição ainda incluiu um bolinho de bacalhau de entrada. Redondo, grande, bem sequinho, por R$ 3,5 a unidade. O prato principal também incluiu o javali que o menu oferece. Preparado de forma semelhante ao cabrito, ele se destaca menos, e tem o sabor mais suave, a carne clara, lembrando bastante um pernil de porco comum. Vale a pena se a pessoa já enjoou do cabrito, ou quer variar, mas a primeira opção continua fora de série.

Ah, e vale lembrar que é um restaurante no Rio, então é bom estar preparado para garçons folgados e mal-humorados... Não precisa de preocupar, a comida muda qualquer impressão negativa.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A dieta do palhaço brasileiro

A caminho do Rio de Janeiro, o Monstro apresenta a curiosa história da iguaria mais admirada dos bares da capital fluminense: o bolovo.

A história foi apresentada há alguns anos pelo humorístico Hermes e Renato, e segue os passos do filme "Supersize me", em que um documentarista se alimenta de McDonald's por um mês.

O Brasil é o campeão mundial no consumo de bolovo, o bolinho frito de carne e ovo, diz o programa.

Orlando Matias, personagem do programa, decidiu fazer um teste, passar uma semana se alimentando apenas de bolovo. Um no café-da-mahã, três no almoço, quando ele já começa a passar mal, e mais três no jantar, o bolovo em domicílio.

John Coltraine, seu médico, adverte que ele não terá muito tempo de vida, se continuar, mas ele continua...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O sucesso e o álcool

A Inglaterra parece ter departamentos de pesquisa científica dedicados exclusivamente a criar justificativas para hábitos beberrões. Que bom!!!

A mais nova é a seguinte: segundo o Independent, quanto mais bem sucedidos profissionalmente os homens são, mais eles bebem. A média chega a 23 unidades alcoólicas (?!) por semana, o equivalente a 11 taças de vinho, 2 unidades alcóolicas que o máximo recomendado para a saúde. Segundo a pesquisa, esta é a forma encontrada para aliviar o estresse do trabalho.

O Departamento Nacional de Estatisticas do Reino Unido, que liberou os dados nesta semana, diz que mais de 10 milhões de ingleses já bebem mais que o recomendado. Considerando que a média inclui os 6 milhões de pessoas que não bebem nada, dá para ver que os que bebem realmente passam todos os limites.

O levantamento havia subestimado a quantidade de bebida consumida no país por não contar com as cervejas de alto teor alcoólico e uma outra moda no país, vinho servido em taças maiores que os tradicionais 175 ml.

Os dados revelam que os ingleses bebem mais que os escoceses e os galeses (os irlandeses não entraram na pesquisa), e um dos lugares preferidos para o consumo de bebidas alcoólicas é a própria casa.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Sem bochecha

Quem não tem guanciale (bochecha de porco curada), vai de bacon para tentar reproduzir, no Brasil, o prato cuja origem é a mais disputada da Itália atualmente: O espaguete à matriciana.

A versão do Monstro usou espaguete Barilla, bacon, cebola (como a versão romana do prato) e tomates pelados enlatados da Casino, marca francesa atualmente disponível no Pão de Açúcar (muito saborosos e por cerca R$ 3).

O bacon vai à frigideira para dourar bem, e ficar crocante. Depois é retirado e reservado, e a cebola é frita na gordura que ficou na panela. Depois vêem os tomates, picados depois de despejados na frigideira. Após cozinhar o molho, voltam os cubos de bacon e está pronta a receita que vai ser misturada à massa.

Já no prato, ganha cobertura de queijo parmesão (o original é pecorino, mas, mais uma vez, o Brasil oferece mais parmesão). É provável que ficasse melhor seguindo a receita original, mas essa quebra um bom galho.

Simples e delicioso.

O sabor da etiqueta

Com dúvidas sobre que vinho escolher para o jantar? Aqui vai uma dica: escolha pelo preço. Quanto mais caro, melhor.

Agora está provado cientificamente. Não é apenas por "sugestão" que as pessoas acham melhor o vinho apresentado com preço mais alto. Mesmo que ele não seja de fato bom, a sensação de prazer vai ser maior se ele for caro, revelou um estudo do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech - clique aqui para ver a apresentação do estudo, em inglês).

A pesquisa analisou a atividade cerebral de 20 voluntários enquanto eles experimentavam três vinhos diferentes, apresentados como se fossem cinco, com preços de US$5, US$10, US$35, US$45 e US$90. O que de fato custava US$90 era o mesmo apresentado como US$10, e o que de fato custava US$5 era o mesmo apresentado como US$45.

O que a análise da atividade cerebral descobriu é que o vinho mais caro de fato aumentava a sensação de prazer das pessoas. "Os preços, sozinhos, afetam a atividade da área do cérebro responsável pelo prazer", disse o diretor da pesquisa.

A dúvida: E um vinho em promoção, fica pior? Se a pessoa sabe que ele custa R$ 100, mas encontra à venda por R$ 15, qual o preço que o cérebro interpreta? O Monstro diria que o preço mais alto, e acredita que a promoção ainda dá mais prazer pela sensação de "se dar bem" e economizar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Lagosta com lagosta


Para celebrar o encerramento do final de semana “Feitiço de Áquila”, quando o Monstro e sua esposa trabalham em horários alternados, sem se encontrar, as lagostas trazidas da praia dos Carneiros renderam um jantar com um prato que provavelmente é o melhor já preparado pelo autor do blog.

Um prato, não, uma sucessão de pratos, um excelente jantar degustação de lagostas, regado a Prosecco.

Eram quase dois quilos, um total de 19 pequenas lagostas trazidas após a viagem do Reveillon. Cada quilo foi comprado por impressionantes R$ 13.

A preparação para a noite teve início logo à tarde. As lagostas foram lavadas, decapitadas e abertas no sentido vertical de suas caudas, mas a carne não foi tratada logo de cara.

As cabeças foram para a panela com azeite e alho, e logo foram acompanhadas de cebolas, tomates, vinho branco, cheiro verde, sal e pimenta. O caldo, acrescido de água, ficou umas boas duas horas no fogo, para apurar bem o gosto, e em seguida foi separado em duas partes. Uma foi batida no liquidificador com as cabeças e a outra, sem.

Logo que a esposa chegou, foi recebida com gourgères bem quentinhos, saídos do forno. A massa era a mesma que havia sido preparada uma semana antes (clique aqui para ver como), e havia sido congelada. Realmente o sabor fica muito mais acentuado quando o pãozinho é comido como entrada, acompanhado por um vinho.

Em seguida começou o banquete de verdade.

A entrada da degustação teve duas partes: um bisque de lagosta e canapés de filé de lagosta na manteiga.

Para a bisque, creme de origem espanhola (de Biscay) que fica entre a sopa e o purê, o caldo que foi batido junto com as cabeças das lagostas foi coado e voltou a ser fervido. Foram adicionadas duas pêras picadas, para dar consistência e sabor, sem deixar o caldo muito pesado. As pêras foram fervidas até que, espremidas, se dissolvessem no líquido. Por último, foram acrescentados filés inteiros de três lagostas, e pronto, assim mesmo, sem creme de leite para não ficar pesado demais.

Este creme foi servido em pequenas porções, com o pedaço da lagosta se destacando dentro do caldo. De sabor intenso e textura suave (deixando perceber até mesmo pedaços das pêras), foi só o começo.

Dois filés de lagosta foram picados em pedaços bem pequenos, temperados com sal e ervas de Provence, e jogados na frigideira em que cebolas já caramelizavam na manteiga. Após assar bem, o picadinho cobriu pedaços de pão e ainda recebeu azeite e queijo parmesão, indo ao forno em seguida. Crocantes e se destacando pelo crustáceo amanteigado, foram um bom acompanhamento de lagosta para o bisque de lagosta.

A combinação de lagosta com lagosta voltou no excepcional prato principal. Um risoto de lagosta acompanhado de caudas de lagosta assadas na manteiga.

As caudas de lagostas abertas no sentido horizontal receberam uma cobertura de manteiga temperada e foram ao forno, onde ganhar textura e sabor sensacionais. A manteiga derretida recebeu azeite, sal, cebola e alho, salsa e cebolinha e pimenta calabresa. Foi esta mistura que recheou as caudas a serem assadas.

Para o risoto, o Monstro usou o caldo separado no início do processo, em que as cabeças da lagosta foram cozidas, mas não batidas. Após refogar o arroz arbóreo na mesma manteiga temperada das caudas, vinho branco e algumas conchas, lentamente, do caldo, mexendo bem, com muita paciência. Quando o ponto está bom, queijo parmesão, um pouco mais de líquido e 5 a 10 minutos de descanso com a panela tampada.

Juntos, a cauda e o risoto formaram uma grande parceria, um jantar digno de ser lembrado como um dos melhores já feitos pelo Monstro.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Sanduíche de formiga

Por que um jantar com camarão ou lagosta soa tão apetitoso, mas um gafanhoto assado não, se ambos os bichos são artrópodes? Para acabar com a fome no mundo, o Guardian achou a solução: vamos deixar o medo de lado e começar a comer insetos.

Segundo o jornal britânico, 80% da população do mundo já está fazendo isso, se alimentando de 2.000 tipos diferentes de insetos, por mais bizarro que isso possa soar aos recatados ouvidos ocidentais. Até a ONU já recomendou, em 2004, insetos como uma fonte de proteínas e gordura, com baixo colesterol e que tem pouco impacto no meio ambiente.


A estranha dieta no mundo inclui gafanhotos no méxico (fritos e bastante apetitosos na foto acima) e libélulas em Bali, sem falar no que se pode encontrar nas ruas da China. No Recife há o hábito de comer tanajura, a formiga do bundão, uma vez por ano, mais pela tradição de que pelo sabor. O Brasil ainda não criou coragem de experimentar muitos insetos diferentes.

Na próxima vez em que vir um besouro, em vez de matar com a sandália, pege-o, tempere-o, asse-o e coma-o... Ou então deixe pra tentar quando visitar algum país que já tem isso como uma coisa natural.



sábado, 19 de janeiro de 2008

Briga saudável e saborosa

A Itália vive uma guerra civil gastronômica. Todos querem ser os pais da tradicional receita de massa à matriciana, segundo relatos do New York Times.

A cidade de Amatricia diz que a receita é sua, e que o nome do prato vem do nome do local. Roma também quer um pedaço, e diz que foi lá que o prato surgiu, e até a região de Abruzzo exige exame de DNA para comprovar paternidade. Tudo continua muito incerto, entretanto.

Em cada região, o prato sofre leves transformações, podendo levar ou não cebola, levar ou não azeitonas, levar ou não queijo parmesão, levar ou não pepperoncino, a tradicional pimenta calabresa. E cada região usa uma massa diferente, também. Do bucatini, ao espaguete.

Disputas à parte, o prato é um dos ais tradicionais da culinária italiano, e é basicamente feito de tomate, queijo e um corte muito específico do porco, confundido internacionalmente como bacon: guanciale (foto). Trata-se de um pedaço da bochecha do porco curado por três semanas em sal, mas não defumado.

O guanciale é comum na Itália, mas não no resto do mundo, o que dificulta a reprodução perfeita do prato. É esse tipo de barreira que a globalização tenta derrubar, mas ainda engatinha. Isso é algo que foi mencionado pelo Chef em Domicílio, Niv Froman, quando tentou reproduzir o espaguete à carbonara na cozinha do Monstro.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Pão com queijo

O melhor pão da cidade não está em nenhuma das listas de revistas e jornais especializados em gastronomia. Não tem Galeria dos Pães, não tem Bela Paulista, não tem quem dispute. Ninguém faz nada igual à baguete folhada de queijo parmesão da Campos Elíseos (R$ 5,90).

Montada em camadas, com recheio de queijo e coberta por uma camada crocante, ela sozinha vale como entrada ou como um jantar simples, como o do Monstro durante a semana.

Junto com um pequeno queijo tipo camembert nacional (Polenghi, R$ 6), gostoso, mas de gosto pouco apurado; um patê de fígado com trufas da Hans (R$ 5), dois belos croissants e uma salada, vale por muita refeição de verdade que se possa fazer pela cidade.

Ah, e sem esquecer o vinho. Comer em casa sempre tem a vantagem de poder tomar vinhos de qualidade superior pelo menos preço de vinhos simples de restaurantes. O investimento do dia foi de R$ 35 numa garrafa do ótimo chileno Gran Tarapacá Merlot, de sabor intenso e complexo, daqueles que se percebe a qualidade desde o cheiro até o primeiro gole.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Tá na mão

Que tal um café espresso em qualquer lugar? A promessa é do Handpresso, pequeno aparelho portátil que usa uma bomba de pressão para fazer o café ficar com o gosto especial do café de máquina.

É só bombear, juntar água quente, um sachê de espresso e aproveitar o café. O aparelho custa US$ 145 dólares no site da Acquire.

Abaixo, um vídeo de humor infame usado na propaganda do Handpresso.

Surpresa no biscoito

Sabe os biscoitos da sorte que finalizam a refeição em qualquer restaurante chinês do Brasil? Não existe na China. É japonês!

A pesquisadora japonesa Yasuko Nakamachi passou seis anos pesquisando a história dos biscoitos da sorte para poder afirmar isso, segundo o caderno de comida do New York Times. Ela descobriu desenhos e menções a esta “sobremesa” em documentos japoneses de 1878, bem antes do início do século XX, época apontada pelos imigrantes nipônicos nos EUA para o seu surgimento.

A descoberta, a ser lançada em livro nos Estados Unidos em março, surpreendeu até mesmo as comunidades chinesa e japonesa no país, responsável pela divulgação da sobremesa pelo mundo e que produz a maior parte dos 3 bilhões de biscoitos consumidos todo ano no planeta.

Segundo a pesquisadora, o biscoito levado pelos japoneses para os EUA foi incorporado pelas comunidades chinesas durante e após a Segunda Guerra, especialmente na Califórnia, quando os japoneses foram perseguidos e os chineses começaram a popularizar sua alimentação.

Nakamachi aponta para o Japão como origem dos biscoitos, mas adverte que sua popularização no mundo se deu apenas por causa do tino comercial dos chineses radicados nos Estados Unidos. Foram eles, segundo ela, que realmente recriaram o biscoito da sorte como ele é hoje.

Logo na abertura da reportagem do New York Times, o texto menciona o Brasil, onde os biscoitos são populares, e comenta que em 2004 muitos prêmios distribuídos pelo que chama de “loterial nacional” do país tiveram origem em biscoitos da sorte vendidos na rede de comida chinesa Chinatown.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Monstra na cozinha

Ela normalmente nem entra na cozinha. Fica de longe, observa, ajuda quando necessário, mas não se aventurava a preparar nada além de um sanduíche, ou um ovo frito. Mas o domingo foi o dia das mulheres na cozinha, e ela foi, trabalhou, limpou, temperou, mexeu, cozinhou e provou que mulher de Monstro monstrinha é.

A aventura estava marcada desde a ida à praia dos Carneiros, quando ela se juntou à Monstra Mestra para acertar um cardápio e trazer de lá para São Paulo alguns frutos do mar congelados. Lá mesmo ela se decidiu: faria um pirão de caranguejo com patolas. Depois de pegar a receita com a mentora, ela já sabia até o que precisaria comprar para completar o prato.

E então ela foi (pelo que imagina o Monstro) e refogou os legumes (cebola, tomate, cebolinha e salsa), juntou água, cozinhou nesse caldo as patolas de caranguejos, tirou elas da água, juntou leite de côco e transformou o caldo num pirão. Tudo foi feito de forma lenta e extremamente correta, o que se concretizou numa comida muito saborosa.

Mas a farra gastronômica e a demonstração de habilidades da monstrinha já tinham começado antes do pirão. Junto com as patas de caranguejos, ela havia trazido filés de agulha branca, pequenos e fininhos pedaços de um peixe simples e saboroso.

Ela temperou os filés com limão e sal e os empanou em farinha de trigo com sal pimenta e cebolinha desidratada. Depois fritou tudo em óleo fervendo e serviu a agulha mais sequinha que já foi servido na casa do Monstro.

Depois de tudo isso ainda teve a sobremesa, um belo pavê de sonho-de-valsa preparado por Luísa, mulher de Leandro, que normalmente também não costuma se aventurar muito na cozinha e mostrou que esconde habilidades. A sobremesa estava tão boa que ninguém parou de comer para poder bater uma foto. Ficou um enorme silêncio enquanto todos comiam, e até o Monstro, que nem gosta tanto assim de doce, repetiu a dose.

Depois dessa vai ser difícil a nova Monstra continuar escondendo este talento para sempre.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Pão de queijo francês

Gourgères são pequenos bolinhos de massa duas vezes assada, uma delas ao forno, que têm uma aparência de pão com uma textura um tanto mais suave. Tradicionalmente preparados com queijo gruyère, segundo a Larousse Gastronomique, a receita preparada pelo Monstro para o café-da-manhã deste domingo foi com quejo gorgonzola (substituindo o sugerido bleu encontrado num blog via Tastespotting).

Como toda massa de pão, a base dele, o choux, dá algum trabalho, braçal em sua maior parte. A receita diz que deve-se misturar 100 gramas de manteiga, sal e uma xícara e meia de água, e levar ao fogo, para ferver. Depois de fervido, a panela sai do fogo e adicionam-se duas xícaras de farinha de trigo, mexendo fortemente a mistura para que fique homogênea. Caso essa primeira massa fique muito grudenta, pode-se levar de volta ao fogo, até que fique mais seca e desgrudando da panela. Assim que a massa fica seca (depois de um minuto, normalmente), ela é retirada do fogo e são adicionados cinco ovos, um de cada vez, enquanto a mistura vai sendo mexida para que se mantenha homogênea.

Pronto este choux, que pode ser usado para fazer rosquinhas, eclaires ou pãezinhos salgados recheados, o próximo passo é transformá-lo em pãozinho de queijo francês, incorporando um queijo típico, de sabor forte. Por ser o mais barato e acessível no Brasil, o Monstro usou o gorgonzola, que lembra um pouco o bleu e o roquefort pela quantidade e tipo de fungos.

Bem picadinho, o queijo é agregado à massa, junto a uma boa quantidade de pimenta-do-reino, e tudo é mexido vigorosamente mais uma vez, completando a massa.

É esta massa que é colocada numa assadeira untada, em pequenas bolinhas feitas com uma colher e pinceladas com ovo, para dourar. As bolinhas vão ao forno em fogo baixo por 35 a 40 minutos.

A aparência de pão de queijo é notável, mas a textura é diferente. Sem fermento, a massa não cresce muito, não fica aerada, mas mesmo assim fica bastante leve e macia, com um forte sabor dos ovos e do queijo, que se derrete e se espalha completamente.

Os gourgères são normalmente servidos como entrada, com um bom vinho, e não como café-da-manhã. como a receita rende bastante massa, mais da metade que sobrou foi para o congelador, para voltar em breve, à noite, iniciando um jantar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Minimalista

Toda quinta-feira, o site do New York Times traz um novo vídeo de receita de Mark Bittman, o Minimalista. Seu projeto é fazer a comida mais saborosa com o mínimo de esforço, sem afetação, sem malabarismos, sem detalhes excessivos, estilo seguido com afinco pelo Monstro.

Na última semana, ele fez um Assado de Porco Porto-Riquenho, um pernil. No domingo, o Monstro já reproduzia a dica, servindo à tia e aos primos que foram visitá-lo. Para isso, usou uma peça de paleta de porco de 4kg, já desossada e levemente temperada, comprada por R$ 32 no Walmart (R$ 8 por quilo, um bom preço).

A receita é simples: antes de mais nada, num processador, cebola, alho, cominho, páprica picante, pimenta-do-reino e sal são triturados e misturados, junto com uma boa dose de azeite. Bittman parou por aí, mas o Monstro quis mais e ainda adicionou belas colheradas de mostarda dijon.

Toda a mistura é amassada e espalhada pela a peça de porco. A paleta desossada podia receber o tempero por dentro, quase como se estivesse sendo recheada. O Monstro adicionou legumes (batata e cenoura) na assadeira, e um pouco de água (500 ml) só para a carne não ressecar.

Depois disso, a peça vai ao forno por longas horas (1h30 por quilo, o que dá seis horas no total). As duas primeiras horas a peça é coberta com papel alumínio, em seguida aberta, sendo regada regularmente com o delicioso líquido que se acumula na bandeja. Depois de pronto, aguardamos 15 minutos para “os sucos” voltarem para as extremidades da carne.

O resultado foi uma carne tão macia que se desfazia, cheia de sabor e muito suculenta, a ser acompanhada pelos legumes da própria assadeira (fantásticos) e uma farofa de jerimum molhadinha, feita paralelamente.

Como finalizou o Minimalista, vale a espera: “Queria lembrar que o pernil é muito barato, o que rende uma ótima refeição, e é extremamente saudável. Tá bom, não nada é saudável, mas tanto faz, é muito bom.”

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Supercervejas

A nova moda nos Estados Unidos, diz o New York Times, são as cervejas extremas.

Fortalecidas com mais lúpulo (hop) e álcool de que o normal, estas supercervejas são fortes, amargas, de gosto difícil, mas, para quem gosta, viciante.

Por mais que o gênero de bebidas fortes e amargas não tenha surgido nos Estados Unidos, a reportagem fala que a moda atual merece ser criticada por valorizar a força pela força, como uma “bebida para macho”, que desafia o gosto, de forma similar a pimentas violentas que valem só pelo sofrimento que podem causar. Ainda assim, dizem, da mesma forma que acontece com as pimentas, algumas cervejas têm um ótimo gosto.

Em reportagem que incluiu a degustação de 25 dessas bebidas, os críticos do jornal norte-americano dizem terem tido muito preconceito, mas se surpreendido positivamente com a qualidade e o equilíbrio das cervejas fortes.

A preferida deles foi a 90 Minute Imperial Indian Pale Ale da marca Dogfish Head. Segundo eles, a cerveja combina o gosto adocicado de caramelo e chocolate com amargor extremo, gerando um sabor inesperado e agradável.

Mangueboys

Bate, bate, bate, morde, quebra a casca e suga a carne. O trabalhoso processo se repete pata a pata (dez no total, sendo duas grandes pinças) para conseguir a recompensa, a saborosa carne do crustáceo de mangues, escondida, saborosa e macia, mas sempre em pequenas quantidades.

Uma das comidas mais tradicionais e comuns nos bares do Recife, o caranguejo não está presente comumente em São Paulo, por isso o Monstro teve que trabalhar duro para conseguir comer o caranguejo na praia dos Carneiros e poder escrever aqui sobre ele.

Desde a estrada no caminho para Tamandaré, dezenas de vendedores eram vistos vendendo as cordas de caranguejo e guaiamum vivos, prontos para serem lavados e cozidos, como tantas vezes se faz dentro da própria casa no Recife.

Bem cozido, ele chega à mesa acompanhado de uma madeira de apoio e um batedor para quebrar as patas, por mais que algumas sejam partidas mesmo nos dentes, para facilitar na hora de pegar a carne.

Seu sabor é bem característico, mais simples que o adocicado guaiamum, ou o forte siri (siri mole vale um capítulo à parte) e pequeno aratu. Seu caldo ganha características bem próprias e também vem à mesa, transformado em pirão, comido na própria carapaça.

É um processo trabalhoso, que muita gente acha que sequer vale a pena, mas o sabor da carne sugada da carapaça não se compara a nenhum filé que possa ser comprado já tratado, e o próprio processo pode ser diversão para uma tarde inteira.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Espigas de milho com pernas

Para o escritor norte-americano Michael Pollan, a profusão e a variedade de diferentes alimentos disponíveis para consumo humano nos dias de hoje, especialmente os industrializados, levou a sociedade contemporânea de volta ao "dilema do onívoro", expressão batizada pelo psicólogo Paul Rozin e que explica a situação de liberdade e insegurança em que se pode comer de tudo e com isso se envenenar, no curto ou no longo prazo.

Com isso em mente, Pollan foi pesquisar as origens dos alimentos consumidos cotidianamente pelos Estados Unidos e chegou a uma conclusão, enquanto entrevistava Todd Dawson, biólogo de Berkeley: "Quando se observa a proporção dos isótopos, nós, norte-americanos, parecemos espigas de milho com pernas." Os isótopos é a análise química que comprova a origem das calorias consumidas por uma pessoa. O milho está na base de tudo o que os norte-americanos comem, e com isso, eles se tornam um pouco milho também.

"Quando comecei a tentar seguir a cadeia alimentar industrial, esperava que minhas investigações fossem me levar a uma enorme variedade de lugares. E, apesar de as minhas viagens de fato me levarem a um grande número de estados, e de cobrirem muitos quilômetros, exatamente no fim dessas cadeias alimentares (o que vale dizer, no começo de tudo), eu invariavelmente fui parar no mesmo lugar: uma fazenda no Cinturão do Milho americano, a região do Meio-Oeste do país conhecida pelo cultivo dessa planta. Acaba-se descobrindo que o grande edifício de variedade e opções que é o supermercado americano tem fundações biológicas notavelmente restritas a um pequeno grupo de plantas dominadas por uma única espécie: Zea mays, a erva tropical gigante que a maioria de nós conhece como milho."

"É o milho que alimenta o novilho que se transforma no bife. O milho alimenta a galinha e o porco, o peru e o cordeiro, o bagre e a tilápia e, cada vez mais, até o salmão, um carnívoro por natureza que os criadores de peixe estão submetendo a uma reengenharia para que passe a tolerar o milho. Os ovos são feitos de milho. O leite e o queijo e o iogurte, que antes vinham das vacas leiteiras que se alimentavam no pasto, agora costumam vir das vacas holstein, que passam sua vida útil num estábulo, ligadas às máquinas, comendo milho."

"Vamos adiante para a seção de comidas processadas e encontramos manifestações ainda mais intricadas do milho. Num nugget de galinha, por exemplo, o milho se sobrepõe ao milho: a galinha ali contida consiste em milho, é claro, mas também os outros ingredientes do nugget, incluindo o amido de milho geneticamente modificado que dá a liga responsável pela consistência da coisa, a farinha de milho na massa que reveste e o óleo de milho no qual q peça é frita. E, o que é muito menos óbvio, as leveduras e a lecitina, os mono, di e triglicerídios, a atraente cor dourada, e até mesmo o ácido cítrico que mantém o nugget "fresco", todos podem ser derivados do milho."

"Ao acompanhar seus nuggets de frango com qualquer refrigerante, você estará acrescentando milho ao milho. (...) Leia os ingredientes na embalagem de qualquer alimento processado e, contanto que saiba decifrar os termos químicos que o disfarçam, milho é o que você encontrará."

"O milho está no creme para o café, no iogurte congelado e na refeição semi-pronta, na fruta em lata, no ketchup e nos doces, nas sopas e tira-gostos e misturas para bolo, nos waffles com cobertura e nos congelados, nos xaropes e molhos quentes, na maionese e na mostarda, nos cachorros-quentes e no molho à bolonhesa, na margarina e na manteiga de bolo, no molho para saladas e nos condimentos e até nas vitaminas. Num supermercado médio americano, é possível encontrar cerca de 45 mil itens e mais de um quarto deles atualmente contém milho. Isso também vale para os itens não comestíveis: tudo, da pasta de dentes até os cosméticos e as fraldas descartáveis, sacos de lixo, produtos de limpeza, fósforos e pilhas, até mesmo a película brilhante que recobre a capa da revista que chama sua atenção na banca: milho. Mesmo no setor de legumes e verduras, quando não existe nenhum milho à vista, você acabará encontrando muito milho: na cera vegetal com a qual os pepinos são recobertos e que lhes dá um brilho extra, nos pesticidas responsáveis pela perfeição exibida pelos produtos, até mesmo no revestimento das embalagens de papelão de que foram revestidos. Na realidade, o próprio supermercado - as divisórias e folhas de material prensado, o linóleo, a fibra de vidro e os adesivos com os quais as instalações foram construídas - consiste, de alguma forma, numa manifestação do milho."

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Criatividade


"Carioca é mesmo um povo muito criativo, inventou o caldinho de feijão na praia." Esse cúmulo do jornalismo desinformado e irresponsável foi ao ar há alguns anos no Multishow, num programa apresentado pelo pseudo-jornalista Fábio Júdice, que apresentava a variedade de produtos à venda na orla do Rio de Janeiro.

Por estranho que possa parecer o apresentador que quer posar de celebridade ou ao povo do sudeste com toda a sua mentalidade auto-centrada, o caldinho é, há décadas, a unanimidade das praias do Recife. Não há ida a Boa Viagem sem a cerveja gelada acompanhada do caldinho de feijão, ou de peixe, de camarão, de sururu... Isso é muito mais importante de que o próprio banho de mar.

O de feijão, mais tradicional, é feito da feijoada batida, vem grosso, acompanhado por um ovo de codorna, azeitona e cubinhos de charque, ou pode ser montado ao gosto do comensal. Até algum tempo atrás, o copo de plástico com 200 ml custava algo em torno de R$ 1,50, e servia quase como uma refeição para segurar a onda das cervejas.

Reza o conhecimento popular bem-humorado que o segredo do ótimo sabor do caldinho de praia é que os vendedoras nunca lavam as garrafas térmicas que usam para vendê-lo.

No calor? Perguntam cariocas e paulistas surpresos com o costume. Sim, no calor, suando, contrastando com a cerveja gelada. Para o Monstro, continua sendo uma das melhores opções da praia, que faz falta até nas areias dos "criativos" cariocas com seus mates, globos, esfihas e empadas, onde não é comum ver o caldinho.

domingo, 6 de janeiro de 2008

O rei dos peixes

A chegada do "rei dos peixes" à praia dos Carneiros é como passar a ter a comida mais saborosa do mundo no lugar mais bonito do mundo.

Este ano foi a primeira vez que o Beijupirá (peixe chamado de rei), excelente restaurante de Porto de Galinhas que há anos recebe prêmios nacionais, deixou de ser exclusivo da caótica praia de Ipojuca para ser representado, ainda que temporariamente, na beira-mar dos Carneiros. Um ambiente mais acolhedor e agradável para o mesmo cardápio realizado com a mesma competência.

Foi nele que o Monstro jantou em sua primeira noite na praia, ainda na folga do fim de ano, junto com a família. Era um dia comum, mas foi necessário fazer reserva com antecedência, e à noite, todos os lugares já estavam marcados, sem espeço para quem fosse sem marcar antes.

A Família monstro começou a noite com As Trouxas e uma Mixira do Mar. As primeiras são pastéis fritos cuja massa é enrolada como pingos, trouxas. Dentro, o recheio variava entre aratu, charque, caranguejo, camarão e frango. Por mais simples que isso fosse, o acompanhamento, no lugar de um mero molho rosé, era uma calda de caju, suave e doce, que cobria as trouxas dando um sabor novo, diferente e sensacional.

A segunda entrada era uma mistura de frutos do mar, coberta com molho de abacaxi e gratinada com queijo. Polvo, marisquinho, camarão, tudo muito fresco e saboroso.

O prato principal do Monstro tinha a sua cara: Lagosta Metida. Grandes cubos de lagosta preparados da forma mais simples e saborosa, puxados na manteiga. Para acompanhar, um delicioso arroz de mostarda (da folha, não do molho), com gosto suave e diferente do comum, e bolinhos de batata doce com gengibre assados no côco ralado. A combinação estava perfeita, com a lagosta muito macia e suculenta, e os bolinhos contrastando sem tirar o brilho do crustáceo.

O Monstro ainda experimentou o prato da esposa, o Camaranga. Nele, grandes camarões frescos e descascados, fritos na manteiga com especiarias, vinham no prato acompanhados com grandes fatias de manga madura (cheias de sabor, não as que se vendem nos supermercados de São Paulo), acompanhados por um aromático arroz de aipo. Combinação inusitada e saborosa do doce com o salgado.

A noite no excelente restaurante, que tem preços muito acima da média regional, lembrando restaurantes de São Paulo, foi regada ao bom vinho chileno Casa Silvia Carménère. Ela terminou com uma sobremesa que adaptava a tradicional cartola nordestina. O queijo manteiga (requeijão do norte, segundo os paulistas) vinha acompanhado de uma bola de sorvete de banana e uma calda de mel de engenho e cobertura de canela em pó.

A refeição divina para o paraíso.