
O debate na internet foi encarado como um interessante desafio. Carlos Dória, em seu blog sobre comida,
criticou a adoção indiscriminada do leite condensado na cozinha brasileira como uma manipulação marqueteira do Leite Moça, e incitava a deixar de lado o pudim feito com as já tradicionais latinhas para adotar o crème renversé, francês, de que o Monstro nunca tinha ouvido falar até então, em seu lugar.
Então tá. Em vez de uma lata, medidas de leite e ovos, usou 2 ovos inteiros, 4 gemas, 125 gramas de açúcar, um toque de baunilha e meio litro de leite (conforme receita da Larrousse Gastronomique). O leite primeiro é fervido com o toque de baunilha, e vai ganhando uma mistura dos ingredientes restantes pouco a pouco, sendo batido. Quando tudo está misturado, é hora de forno com banho Maria.

Assim como acontece com o pudim de leite condensado, o tempo de cozimento foi muito maior que o descrito nas receitas. Em vez dos 35 minutos de que falava a enciclopédia, foi quase uma hora e meia até que o crème ficasse consistente, e então desenformado e resfriado. A aparência e o cheiro até então eram quase idênticos.
Ao teste do sabor, então, com cinco pessoas já bem acostumadas com o pudim de leite condensado. Foi servir e todos já perceberam que havia algo de diferente, perguntando que pudim era aquele. Nenhuma cara feia, ou reprovação, mas também nenhuma reação positiva em relação à diferença. O sabor, é verdade, é muito parecido, pouco menos doce, mas o crème é menos consistente de que os pudins, mais molinho, chegando a se aproximar de um mingau - a consistência era estranha.
Após a sobremesa, ficou o clima de que faltava algo. “É como comparar sorbet e sorvete. O sorbet não é ruim, mas é diferente, e quem espera sorvete quer sorvete, não quer sorbet.” Foi a esposa que analisou, de forma perfeita. Crème Renversé, portanto, é diferente.

O crème é bom, mas não é pudim que o Monstro e as pessoas atualmente próximas da casa dos 30 anos cresceram comendo. Como disse nos comentários do E-Boca-Livre, blog do Dória, independentemente das receitas que parecem engessadas com o uso do Leite Moça, é preciso levar em consideração de que já existe uma nova geração de pessoas que tiveram o paladar formado em grande parte pelo sabor do leite condensado. Sem querer entrar nos méritos históricos e sociais das latinhas, para o paladar de quem tem 28 anos, uma colherada de leite condensado gelado tem a força nostálgica de uma Madeleine, por mais estranho que isso possa soar para quem não cresceu raspando latas usadas por mães, tias e avós que preparavam as sobremesas "fáceis" oferecidas pelo lobby. Gostando ou não, o lobby venceu, conseguiu ser incorporado no paladar de toda uma geração, que não estará disposta a abrir mão das suas latinhas tão facilmente.
O desafio de experimentar o crème renversée é válido, mas o resultado fica diferente, e o Monstro vai voltar a fazer o jogo da indústria, e assim satisfazer o desejo nostálgico e pessoal de um pudim de infãncia. Respondendo à pergunta do blog dele: “Leite condensado condensa o que?”, bem, condensa as emoções de quem come desde criança, e condensa pelo menos o pudim, que fica mais consistente (condensado) e mais “tradicional”, segundo a tradição pessoal de quem escreve este blog.